Wednesday, April 27, 2005

Pontos

Nunca quebrei nenhum osso do meu corpo. Mas em duas ocasiões já tive que ser costurado. Na primeira, com uns três ou quatro anos de idade, numa brincadeira com um amigo dos meus pais, cortei o supercílio. Ele, adulto, era o toureiro; eu, pequerrucho, era o touro. Eu corri, ele saiu da frente, eu enfiei a testa na quina da mesa. Sete pontos. Nada disto ficou na minha memória, só tenho os relatos da família e a cicatriz na sobrancelha. Na segunda, com uns doze ou treze anos de idade, jogando futebol, cortei o joelho. Com um chute torto mandei a bola para o telhado de uma padaria abandonada, que ficava mais ou menos no mesmo nível do playground no terceiro andar do edifício. Fui resgatar a pelota e as telhas, não agüentando o meu peso, cederam. A queda poderia ter sido de quase dez metros até o chão da padaria, mas aterrisei no topo de um forno, alto o suficiente para que minha única lesão tenha sido um corte no joelho. Sete pontos.

Wednesday, April 20, 2005

Doutor Nélson

Uma vez tive que fazer um trabalho escolar sobre vitaminas. Enquanto meus colegas foram pesquisar nos livros da biblioteca do colégio ou na enciclopédia que tinham em casa, resolvi fazer algo diferente. Sabia que havia um médico morando dois andares abaixo de nós, o doutor Nélson, e fui lá entrevistá-lo sobre as tais vitaminas. Ele me recebeu muito bem e a entrevista foi um sucesso, mas o que mais me marcou foi a sua biblioteca pessoal, a maior que eu já tinha visto num apartamento, cheia de volumes sobre os mais variados assuntos, história, filosofia, matemática, política, física, biografias, em português, inglês, espanhol. Fiquei fascinado com todo o possível conhecimento me esperando por trás daquelas lombadas, e tive a sorte de ser convidado a pegar livros emprestados. Foi ali que, bem no início da adolescência, conheci Voltaire e Montaigne, Kipling e Maugham, Russell e Thoreau. Ainda morei durante vários anos naquele edifício, sempre freqüentando a casa do doutor Nélson, que não só me deixava usar sua biblioteca mas também tinha comigo longas conversas sobre livros e autores e idéias. De vez em quando ele comprava a versão original de algum livro que já tinha em português, e eu herdava o volume traduzido. Ainda tenho nas minhas estantes vários livros marcados com o nome do doutor Nélson na primeira página, um lembrete agradável daqueles anos de formação intelectual.

Wednesday, April 13, 2005

Topo Gigio

Minha mãe diz que o primeiro filme que assisti no cinema foi Branca de Neve e os Sete Anões, da Disney, e que me apavorei com a cena em que os anões se livram da bruxa. Não me lembro de nada disso. Na minha memória, o primeiro filme que vi na tela grande foi uma versão adaptada do Balão Vermelho, aquele filme francês do Albert Lamorisse, mas estrelado pelo Topo Gigio. O ratinho orelhudo deve ter sido um dos heróis da minha infância. Eu tinha uma camiseta com o Topo Gigio, tinha um disquinho com o Topo Gigio cantando Meu Calhambeque, e tinha também um boneco do Topo Gigio. No filme, do qual já não me lembro o nome, o ratinho faz amizade com um balão vermelho que andava perdido pela rua. Lá pelo fim da história o balão estourou e me deixou chorando, inconformado com a crueldade do destino e achando muito fraca a solução encontrada para que os amiguinhos continuassem juntos, com o balão agora transformado em cortina de banheiro.

Wednesday, April 06, 2005

Natação

Quando eu tinha uns doze anos de idade, meus pais resolveram que eu deveria praticar natação. Lá fui eu, magricelo e desajeitado, aprender a dar umas braçadas. A primeira fase até que foi divertida, com um instrutor que dava chineladas amistosas em quem não se comportava como ele queria. Mas depois, quando eu já nadava direitinho e comecei a treinar para competições, a natação tornou-se uma tortura para mim. Nunca soube a razão, se o ambiente líquido, se o exercício repetitivo, se a luta contra o relógio, mas nadar me deprimia profundamente. Lembro-me das minhas lágrimas se misturando com a água clorada da piscina, do meu choro secreto do qual eu nem sabia a razão.

Wednesday, March 23, 2005

Discos

Não sei dizer qual foi o primeiro disquinho que ganhei. Com uns cinco ou seis anos de idade, eu tinha uma vitrola portátil com vários discos coloridos de histórias e canções infantis. Lembro-me bem de O Macaco e a Velha ("tô todo doído, tô todo quebrado, mas Firifinfelha me paga dobrado") e Mogli ("eu uso o necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais"). Mas sei qual foi o meu primeiro disco só com músicas, de uma banda de verdade, com programa de televisão e canção na parada de sucessos. Veio de brinde numa promoção do Nescau e era o que mais tocava na minha vitrola: The Monkees ("hey, hey, we're the Monkees, and people say we monkey around, but we're too busy singing, to put anybody down").

Wednesday, March 16, 2005

Edgar

Quando eu estava na sétima ou oitava série do primeiro grau, arranjei um amigo bem mais velho. Edgar tinha terminado o segundo grau, entrado para duas faculdades ao mesmo tempo, engenharia e filosofia, e ainda assim passava quase todas as tardes no seu velho colégio. Sempre arranjava o que fazer por lá, de projetar filmes no auditório a inventariar livros na biblioteca. Uma vez, quando eu fazia uma pesquisa sobre cubismo, alguém sugeriu que conversasse com ele. Recebi esclarecedoras lições de história da arte, e desde então passamos a conversar com freqüência. Edgar era uma figura estranha, ao mesmo tempo capaz de ficar sentado durante horas, conversando calmamente sobre assuntos variados, e também de andar esbaforido pelos corredores, com passos curtos e rápidos, sempre atrasado para algum compromisso. Usava óculos de aros finos e seu cabelo lembrava Gene Wilder em Jovem Frankenstein. Era bom jogador de xadrez. Com ele aprendi, entre outras coisas, a usar caneta de nanquim para escrever e a carregar sempre comigo um caderninho de anotações. Um dia, Edgar simplesmente desapareceu, deixou de freqüentar o colégio. Deve ter tomado coragem de finalmente cortar o cordão umbilical.

Wednesday, March 09, 2005

Revistinha

Eu era pequeno, e acompanhava minha mãe numa visita à cabeleireira ou à manicure, não sei bem. Era uma casa antiga, numa ladeira, e o estabelecimento tinha um ar doméstico, com grandes e pesadas poltronas de couro. Fiquei lá empoleirado numa dessas poltronas, entretido com uma revistinha do Pica-Pau que tinha levado comigo. Acho que ainda não sabia ler, ou talvez já estivesse aprendendo as primeiras palavras, mesmo assim sempre gostei muito de livros e revistas, especialmente os que tinham grandes figuras coloridas. Não sei o que fiz mas acabei derrubando minha revistinha atrás de uma das poltronas. Ninguém conseguiu alcançar lá e fiquei desconsolado quando me disseram que a poltrona era pesada demais para ser arrastada. Eu queria minha revistinha do Pica-Pau de volta, não me conformava de ficar sem ela. A muito custo, minha mãe me convenceu a voltar para casa deixando a revista para trás, com o argumento de que quando fizessem faxina na casa teriam que arrastar os móveis e então devolveriam a minha revistinha do Pica-Pau. Nunca mais vi a revista, e imagino que depois de alguns dias tenha esquecido do incidente. Hoje me lembro disto porque, após muitos anos, passei em frente à tal casa, agora transformada em clínica psiquiátrica. Imagino se algum dos internos estará lá numa poltrona de couro lendo a minha revistinha do Pica-Pau.